Solo biologicamente ativo: segunda safra mais resiliente
- Kheity Rodrigues

- 15 de abr.
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Circular Técnica - Terrena (1/2026)

Introdução
O solo é o verdadeiro protagonista dos sistemas de produção brasileiros. É ele que sustenta as plantas, armazena água, captura carbono, contribui para a redução das emissões de gases de efeito estufa, promove a ciclagem de nutrientes e abriga a maior biodiversidade do planeta (MENDES, 2025).
Os processos ecológicos que sustentam a saúde do solo são interdependentes e essenciais para a estabilidade dos sistemas agrícolas. A cobertura do solo, por exemplo, atua na proteção contra a erosão, reduz as perdas por evaporação e favorece a infiltração e o armazenamento de água (WARD et al., 2012). Estudos indicam que a presença de palhada pode reduzir a evaporação do solo em até 30-50%, além de aumentar significativamente a taxa de infiltração de água e conservar a temperatura mais amena na superfície do solo coberto (abaixo da palhada) (Figura 1). Em sistemas com boa cobertura, a infiltração pode ser 2 a 6 vezes maior em comparação a solos descobertos (BLANCO-CANQUI; LAL, 2009).

Figura 1: Temperatura média avaliada acima da palhada (A) e na superfície do solo abaixo dela (B). Fonte: Maila Silva.
Solos com maior teor de matéria orgânica apresentam maior capacidade de retenção de água. Estima-se que um incremento de 1% de matéria orgânica pode representar um aumento de até 20.000 a 30.000 litros de água por hectare armazenados no solo, contribuindo diretamente para a resiliência das culturas em períodos de déficit hídrico (HUDSON, 1994; LAL, 2020).
A atividade biológica desempenha papel fundamental nesse contexto. A formação de bioporos por raízes e organismos edáficos melhora a aeração e a dinâmica da água no perfil do solo, criando condições mais favoráveis ao desenvolvimento radicular. A presença desses bioporos pode elevar a condutividade hidráulica do solo em até 10 vezes, favorecendo a infiltração e o armazenamento de água em profundidade (LAL, 2015). A agregação do solo, promovida por exsudatos microbianos e pela matéria orgânica, confere estabilidade estrutural e reduz a suscetibilidade à compactação (RAUBER et al., 2025). Paralelamente, a ciclagem de nutrientes e a fixação biológica de nitrogênio, mediadas por microrganismos benéficos, asseguram o fornecimento contínuo de nutrientes às plantas.
A intensificação desses processos biológicos abre espaço para abordagens mais eficientes no uso de insumos, onde o foco deixa de ser apenas a reposição de nutrientes e passa a incluir a otimização da sua dinâmica no sistema solo-planta. Nesse contexto, o uso de ferramentas que estimulem a biologia do solo ganha relevância como estratégia complementar ao manejo convencional. Como resultado, isso contribui diretamente para a manutenção da fertilidade do solo e para o aumento da produtividade agrícola (SOUZA et al., 2024). Ao promover práticas conservacionistas e sistemas integrados que favorecem a saúde do solo, é possível construir agroecossistemas mais sustentáveis, produtivos e adaptáveis às novas condições climáticas (Figura 2).

Figura 2: Relação entre processos do solo, funções ecossistêmicas e saúde do solo. Fonte: Adaptado de Souza et al. (2024).
A segunda safra é frequentemente cultivada em condições de maior restrição hídrica, exigindo plantas com sistema radicular eficiente para explorar o solo em profundidade. Em solos com as camada biológica, física e química estruturadas, culturas como o milho podem explorar até 1,0–1,5 metro de profundidade, acessando água armazenada no perfil e reduzindo os efeitos de veranicos (LYNCH, 2013). Assim, o desenvolvimento radicular passa a ser um dos principais fatores de estabilidade produtiva.
Nesse contexto, bactérias promotoras de crescimento de plantas, especialmente Bacillus aryabhattai, Bacillus subtilis e Bacillus amyloliquefaciens, têm sido amplamente estudadas por sua capacidade de estimular o crescimento radicular e favorecer a nutrição das plantas. Essas bactérias colonizam a rizosfera e interagem diretamente com as raízes, promovendo alterações fisiológicas e bioquímicas que favorecem o desenvolvimento do sistema radicular.
Entre os principais mecanismos estão a produção de fitormônios, como auxinas, a solubilização de fósforo e a formação de biofilmes protetores. Estudos indicam que o uso dessas bactérias pode promover incrementos de até 10–25% no volume radicular, além de ganhos de produtividade que variam de 3 a 8 sacas por hectare em milho segunda safra, dependendo das condições ambientais e do manejo adotado (KLOEPPER et al., 2004; BACKER et al., 2018).
Incluir o uso de bactérias benéficas no solo ajuda as plantas na absorção de nutrientes, melhora a estrutura e saúde do solo e favorece o crescimento de outros microrganismos se o solo tiver matéria orgânica, umidade adequada e pH equilibrado. Combinar bactérias com compostos orgânicos e técnicas de manejo cuidadoso é a estratégia mais eficiente para essa finalidade. Quando bem integradas ao sistema de manejo, essas práticas permitem ao produtor avançar para um modelo mais eficiente, onde produtividade e sustentabilidade caminham juntas, com melhor aproveitamento dos recursos disponíveis e maior retorno sobre o investimento.
Referencial bibliográfico:
BACKER, R. et al. Plant growth-promoting rhizobacteria: mechanisms and applications. Soil Biology and Biochemistry, v. 119, p. 1–10, 2018.



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