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Solo biologicamente ativo: segunda safra mais resiliente

Circular Técnica - Terrena (1/2026)

solo com boa fertilidade

Introdução

O solo é o verdadeiro protagonista dos sistemas de produção brasileiros. É ele que sustenta as plantas, armazena água, captura carbono, contribui para a redução das emissões de gases de efeito estufa, promove a ciclagem de nutrientes e abriga a maior biodiversidade do planeta (MENDES, 2025).

Os processos ecológicos que sustentam a saúde do solo são interdependentes e essenciais para a estabilidade dos sistemas agrícolas. A cobertura do solo, por exemplo, atua na proteção contra a erosão, reduz as perdas por evaporação e favorece a infiltração e o armazenamento de água (WARD et al., 2012). Estudos indicam que a presença de palhada pode reduzir a evaporação do solo em até 30-50%, além de aumentar significativamente a taxa de infiltração de água e conservar a temperatura mais amena na superfície do solo coberto (abaixo da palhada) (Figura 1). Em sistemas com boa cobertura, a infiltração pode ser 2 a 6 vezes maior em comparação a solos descobertos (BLANCO-CANQUI; LAL, 2009).


Figura 1: Temperatura média avaliada acima da palhada (A) e na superfície do solo abaixo dela (B). Fonte: Maila Silva.

Solos com maior teor de matéria orgânica apresentam maior capacidade de retenção de água. Estima-se que um incremento de 1% de matéria orgânica pode representar um aumento de até 20.000 a 30.000 litros de água por hectare armazenados no solo, contribuindo diretamente para a resiliência das culturas em períodos de déficit hídrico (HUDSON, 1994; LAL, 2020).

A atividade biológica desempenha papel fundamental nesse contexto. A formação de bioporos por raízes e organismos edáficos melhora a aeração e a dinâmica da água no perfil do solo, criando condições mais favoráveis ao desenvolvimento radicular. A presença desses bioporos pode elevar a condutividade hidráulica do solo em até 10 vezes, favorecendo a infiltração e o armazenamento de água em profundidade (LAL, 2015). A agregação do solo, promovida por exsudatos microbianos e pela matéria orgânica, confere estabilidade estrutural e reduz a suscetibilidade à compactação (RAUBER et al., 2025). Paralelamente, a ciclagem de nutrientes e a fixação biológica de nitrogênio, mediadas por microrganismos benéficos, asseguram o fornecimento contínuo de nutrientes às plantas.

A intensificação desses processos biológicos abre espaço para abordagens mais eficientes no uso de insumos, onde o foco deixa de ser apenas a reposição de nutrientes e passa a incluir a otimização da sua dinâmica no sistema solo-planta. Nesse contexto, o uso de ferramentas que estimulem a biologia do solo ganha relevância como estratégia complementar ao manejo convencional. Como resultado, isso contribui diretamente para a manutenção da fertilidade do solo e para o aumento da produtividade agrícola (SOUZA et al., 2024). Ao promover práticas conservacionistas e sistemas integrados que favorecem a saúde do solo, é possível construir agroecossistemas mais sustentáveis, produtivos e adaptáveis às novas condições climáticas (Figura 2).


Figura 2: Relação entre processos do solo, funções ecossistêmicas e saúde do solo. Fonte: Adaptado de Souza et al. (2024).

A segunda safra é frequentemente cultivada em condições de maior restrição hídrica, exigindo plantas com sistema radicular eficiente para explorar o solo em profundidade. Em solos com as camada biológica, física e química estruturadas, culturas como o milho podem explorar até 1,0–1,5 metro de profundidade, acessando água armazenada no perfil e reduzindo os efeitos de veranicos (LYNCH, 2013). Assim, o desenvolvimento radicular passa a ser um dos principais fatores de estabilidade produtiva.

Nesse contexto, bactérias promotoras de crescimento de plantas, especialmente Bacillus aryabhattai, Bacillus subtilis e Bacillus amyloliquefaciens, têm sido amplamente estudadas por sua capacidade de estimular o crescimento radicular e favorecer a nutrição das plantas. Essas bactérias colonizam a rizosfera e interagem diretamente com as raízes, promovendo alterações fisiológicas e bioquímicas que favorecem o desenvolvimento do sistema radicular.

Entre os principais mecanismos estão a produção de fitormônios, como auxinas, a solubilização de fósforo e a formação de biofilmes protetores. Estudos indicam que o uso dessas bactérias pode promover incrementos de até 10–25% no volume radicular, além de ganhos de produtividade que variam de 3 a 8 sacas por hectare em milho segunda safra, dependendo das condições ambientais e do manejo adotado (KLOEPPER et al., 2004; BACKER et al., 2018).

Incluir o uso de bactérias benéficas no solo ajuda as plantas na absorção de nutrientes, melhora a estrutura e saúde do solo e favorece o crescimento de outros microrganismos se o solo tiver matéria orgânica, umidade adequada e pH equilibrado. Combinar bactérias com compostos orgânicos e técnicas de manejo cuidadoso é a estratégia mais eficiente para essa finalidade. Quando bem integradas ao sistema de manejo, essas práticas permitem ao produtor avançar para um modelo mais eficiente, onde produtividade e sustentabilidade caminham juntas, com melhor aproveitamento dos recursos disponíveis e maior retorno sobre o investimento.

Referencial bibliográfico:

BACKER, R. et al. Plant growth-promoting rhizobacteria: mechanisms and applications. Soil Biology and Biochemistry, v. 119, p. 1–10, 2018.

 

BLANCO-CANQUI, H.; LAL, R. Crop residue removal impacts on soil productivity and environmental quality. Critical Reviews in Plant Sciences, v. 28, p. 139–163, 2009.
 
HUDSON, B. D. Soil organic matter and available water capacity. Journal of Soil and Water Conservation, v. 49, p. 189–194, 1994.
 
KLOEPPER, J. W. et al. Induced systemic resistance and promotion of plant growth by Bacillus spp. Phytopathology, v. 94, p. 1259–1266, 2004.
 
LAL, R. Restoring soil quality to mitigate soil degradation. Sustainability, v. 7, p. 5875–5895, 2015.
 
LAL, R. Soil organic matter and water retention. Agronomy Journal, v. 112, p. 3265–3277, 2020.
 
LYNCH, J. P. Steep, cheap and deep: an ideotype to optimize water and nitrogen acquisition. Annals of Botany, v. 112, p. 347–357, 2013.
 
MENDES, I. Solo saudável: o grande trabalhador da agricultura brasileira. Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, 05 dez. 2025. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/105270209/artigo---solo-saudavel-o-grande-trabalhador-da-agricultura-brasileira. Acesso em: 17 mar. 2026.
 
RAUBER, L. P. et al. Soil aggregation and structure in tropical systems. Soil & Tillage Research, 2025.
 
SOUZA, R. et al. Soil health and crop productivity in tropical systems. Agriculture, Ecosystems & Environment, 2024.
 
WARD, P. R. et al. Soil water balance and crop productivity. Agricultural Water Management, v. 113, p. 1–12, 2012.

Colaboração:
Maila Adriely Silva (CTDM Cereais)

Revisão:
Pedro Henrique Sakai Sá Antunes (Coordenador DM Cereais)
 
 
 

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