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El Niño 2026: o que o produtor precisa saber para a próxima safra

Circular Técnica - Terrena (3/2026)

Introdução

Recentemente foi confirmado pela NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) a formação do fenômeno El Niño, que deve ganhar maior intensidade a partir de setembro desse ano. O que ainda gera incerteza não é se o fenômeno ocorrerá, mas qual será a sua intensidade.

O que se sabe até o momento é que as previsões atuais apontam para uma elevada probabilidade de intensificação do El Niño, com 63% de chance de o fenômeno alcançar a categoria de muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027 (INMET, 2026). Mais do que prever excesso ou falta de chuva, entender o El Niño significa antecipar riscos agronômicos e ajustar estratégias de manejo para preservar produtividade e eficiência operacional.


Figura 1: Anomalia de temperatura da superfície do mar na primeira semana de junho 2026. Fonte: INMET.

O que é o El Niño?

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica global, modificando o regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do planeta (GLANTZ, 2001; BERLATO; FONTANA, 2003).

De acordo com o Inmet, no Brasil, os efeitos do El Niño incluem redução das chuvas nas regiões norte, nordeste, sudeste e centro-oeste, aumento da precipitação na região sul e elevação da frequência de eventos extremos em todas as regiões. Essas alterações impactam diretamente no ambiente produtivo, afetando a eficiência do manejo nutricional, desde o plantio até a colheita.


Possíveis impactos na agricultura

A região sudeste costuma apresentar maior irregularidade na distribuição das chuvas em períodos de El Niño, alternando períodos secos e eventos intensos concentrados. Devido a isso, deve-se atentar a impactos negativos no stand inicial de plantas, maior estresse fisiológico, principalmente por elevadas temperaturas, redução da disponibilidade hídrica e maiores perdas de nitrogênio por volatilização. Além disso, nessa região há uma redução na janela de plantio e isso faz com que o produtor tenha que se preparar de forma técnica e mais eficiente para essa fase da lavoura. Na região sul, os maiores volumes de chuva tendem a causar maior encharcamento do solo, maior pressão de doenças foliares, perdas de nutrientes por lixiviação, erosão e degradação intensa do solo, além da maior dificuldade operacional. Já na região norte do país, o El Niño intensifica os eventos de seca e aumenta o risco de queimadas.

Além dos efeitos climáticos visíveis, o El Niño interfere diretamente na dinâmica química, física e biológica do solo. Períodos excessivamente secos reduzem fluxo de massa e difusão até as raízes, limitando a absorção de nutrientes como nitrogênio, potássio, cálcio, magnésio e enxofre, mesmo em solos com boa fertilidade. Outro ponto importante é o impacto sobre o sistema radicular. Solos compactados ou com baixa construção de perfil tendem a sofrer mais em anos de eventos climáticos extremos, o que reduz a exploração radicular e limita a capacidade da planta de acessar água e nutrientes em profundidade.

Figura 2: Efeitos do El Niño na região sul e central do Brasil.

Como se preparar para esse fenômeno?

  • Construção do perfil do solo: Ambientes com fertilidade do perfil construída favorece maior desenvolvimento do sistema radicular e apresentam maior resiliência em épocas de déficit hídrico. Para isso, é importante realizar a análise química e física do solo, para determinar as melhores práticas de manejo para a área. O diagnóstico correto do grau de compactação direciona a utilização das ferramentas mais adequadas para minimizar o problema. Calcário e gesso são ótimos aliados nessas condições para adequar os níveis de pH e aportar nutrientes.

  • Incremento de palhada: A palhada atua como barreira física, impedindo parte da evaporação da água presente no solo. Solos com palha apresentam menor temperatura em sua superfície e isso reduz perda de água para a atmosfera. Além disso, a degradação dessa palhada favorece o aumento da matéria orgânica do solo, o que aumenta a disponibilidade de nutrientes e estimula a atividade biológica do solo. Uma boa alternativa para isso é incluir plantas de cobertura no sistema de manejo e a realização de plantio direto na palha.

  • Adubação eficiente: Em períodos de alto risco, investir em fertilizantes que preservem os nutrientes em formas disponíveis é indispensável. O uso desses fertilizantes protege o potencial produtivo da cultura, minimizando o risco de perdas, que é alto nesse período de estresse intenso. Além disso, o uso de fertilizantes protegidos possibilita um melhor aproveitamento da janela de plantio, que é menor em condições de El Niño.

  • Mitigadores de estresse térmico e hídrico: É importante incluir nas lavouras aditivos que estimulem o crescimento radicular (compostos indutores de enraizamento) para que a planta consiga buscar água e nutrientes nas camadas mais profundas do solo. Deve-se adicionar no manejo a aplicação de Bacillus aryabhattai (Auras) visando a formação de exopolissacarídeos para a proteção das raízes e a otimização do uso da água. Além disso, preparar as plantas com a aplicação de compostos osmorreguladores (ex: prolina, glicina betaína, extratos de alga) é essencial, pois eles atuam como sinalizadores para estresse térmico e hídrico no metabolismo das culturas.

Embora ainda existam incertezas quanto à intensidade final do El Niño, o cenário atual já exige atenção e planejamento por parte dos produtores e profissionais do setor. Em anos de maior variabilidade climática, os melhores resultados são obtidos por sistemas produtivos preparados com antecedência, por meio da construção da fertilidade do perfil do solo, da conservação dos recursos naturais e da adoção de tecnologias que aumentem a eficiência do uso de água e nutrientes. Nesse contexto, mais do que responder aos efeitos do clima, antecipar-se aos desafios é uma estratégia capaz de reduzir riscos e preservar o potencial produtivo das lavouras.


Referencial bibliográfico:

BERLATO, M.A.; FONTANA, D.C. El Niño e La Niña: Impactos no clima, na vegetação e na agricultura do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: UFRGS Editora, 2000. 110 p.
CUNHA, G. R. da et al. El Niño/La Niña – Oscilação Sul e seus impactos na agricultura brasileira: fatos, especulações e aplicações. Passo Fundo: Embrapa Trigo, 2011.
GLANDZ, M.H. Currents of change: impacts of El Niño and La Niña on climate and society. 2.ed. Cambridge: University, 2001. 252p.
HEINEMANN, A. B. et al. The impact of El Niño Southern Oscillation on cropping season and crop water availability in Brazil. International Journal of Climatology, 2021.
NOAA – National Oceanic and Atmospheric Administration. ENSO Diagnostic Discussion. 2026.
RENGEL, Z.; CAKMAK, I.; WHITE, P. J. Marschner’s Mineral Nutrition of Plants. 4. ed. Academic Press, 2023.
TAIZ, L.; ZEIGER, E. Fisiologia Vegetal. 3. ed. Porto Alegre: Artmed.
WMO – World Meteorological Organization. El Niño/La Niña Update. 2026..
 
Revisão:
Pedro Henrique Sakai Sá Antunes (Coordenador DM Cereais)
 
 
 

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Giovana de Lima Mota
22 de jul.
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